segunda-feira, 1 de junho de 2015

O Duplipensar no cotidiano

Por: Elton Orlandin

No livro 1984, George Orwell criou a palavra duplipensar para representar a crença em duas ideias incompatíveis entre si. Essa forma inconsistente de lidar com pensamentos foi descrita por Orwell como “saber e não saber; estar consciente de sua completa sinceridade ao contar mentiras cuidadosamente construídas; defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e mesmo assim crer em ambas; usar a lógica contra a lógica; repudiar a moralidade e ao mesmo tempo apropriar-se dela. Esquecer-se de qualquer fato que tornou-se inconveniente e, quando ele se torna novamente necessário, recuperá-lo do esquecimento apenas enquanto for útil. Negar a existência da realidade objetiva e ao mesmo tempo levar em consideração a realidade já negada”.
George Orwell exemplifica o duplipensar quando descreve o trabalho dos funcionários do Departamento de Arquivo do Ministério da Verdade, que possuíam como tarefa a alteração de documentos históricos, e que ao mesmo tempo acreditavam na veracidade histórica dos documentos falsificados. Ou ainda quando o personagem Winston Smith é forçado a crer que 2+2=5.
O duplipensar também pode ser entendido como ausência de dissonância cognitiva perante duas ideias ou crenças incompatíveis. Quando algum conflito cria certo desconforto na pessoa, a reação normal é procurar mudar uma das duas crenças, ou até mesmo ambas para torná-las mais compatíveis entre si. A reação anômala é o duplipensar. A pessoa que duplipensa sente-se perfeitamente confortável ao acreditar simultaneamente em duas ideias totalmente contraditórias e incompatíveis entre si.
Pode se constatar o duplipensar em muitas áreas da atividade intelectual, no discurso pseudocientífico, em ideologias políticas, nas propagandas e em grande escala na essência do pensamento religioso.
O duplipensar está inserido nas propagandas, principalmente naquelas destinadas à venda de drogas lícitas ao mostrar jovens saudáveis fumando e bebendo, com forte apelo sexual. Quando sabe-se que tanto o cigarro  quanto o álcool provocam vários problemas à saúde, prejudicando inclusive o desempenho sexual.
No discurso pseudocientífico o duplipensar aparece quando o misticismo, proveniente de crenças religiosas se reveste de partes do discurso científico, descartando o que não está de acordo com a crença. Procurando tornar ciência, algo que não se utiliza dos métodos científicos.
Nas ideologias políticas o duplipensar aparece quando se tenta apagar a história, ou revesti-la de fatos tendenciosos, valorizando mais esta ou aquela figura, sem analisar todo o processo histórico, manipulando desta forma o povo alheio aos acontecimentos reais. Ou ainda ao inverter os papéis na democracia, tirando o poder do povo e dando poder àqueles que foram eleitos, transformando servidos em servidores.
Porém, é na religião que o duplipensar aparece descaradamente e com mais força. Os religiosos afirmam que os desígnios de deus estão muito além da compreensão humana. E ao mesmo tempo afirmam que conhecem detalhes, os desejos, as ordens e os desígnios desse deus. Afirmam que a fé não depende de evidências, e ao mesmo tempo aponta para fatos do mundo real querendo obter evidências que apoiem essa fé. Renegam a razão, afirmando que suas crenças precisam apenas de fé. Mas tentam convencer e convencer-se através de raciocínios e argumentos invocando a lógica.
Afirmam que os milhares de deuses que já existiram na história humana são diferentes representações e aspectos de um só deus e ao mesmo tempo convivem com o fato de que esses deuses são muitas vezes incompatíveis entre si. Afirmam ainda que seus livros sagrados são a representação de um deus de infinita inteligência e sabedoria e ao mesmo tempo convivem com uma enorme quantidade de incoerências contidas nesses livros.
Muitos religiosos condenam certas disciplinas biológicas, e ao mesmo tempo fazem uso diário de remédios que só poderiam ter sido desenvolvidos e testados com as descobertas e critérios destas disciplinas. Creem que um deus de suprema inteligência e poder lhes deixou uma mensagem importantíssima, mas por sua gritante falta de clareza, precisão e coerência essa mensagem precisa ser decifrada com a ajuda de interpretes humanos. Preferem ignorar que um deus de suprema inteligência e poder, teria produzido um texto de suprema clareza, precisão e coerência. Um texto que dispensasse intérpretes autonomeados.
O debate com pessoas que duplipensam é cansativo, dispendioso, pois em suma o duplipensamento requer certo grau de fanatismo, o que torna o duplipensador cego aos argumentos apresentados. Isso causa irritação naqueles que percebem as dissonâncias cognitivas que o duplipensador não percebe, ou finge não perceber. Essa confortável convivência com as incoerências é uma característica cognitiva daqueles que duplipensam. Muitas pessoas realmente conseguem se sentir confortável, acreditando simultaneamente em duas ideias conflitantes, enquanto outras não.

Referências:

Chomsky, N. 2003. Contendo a democracia. Ed. Record. 518p.

Diamond, J. 2011. O terceiro chipanzé. Ed. Record. 432p.

Harris, S. 2007. Carta a uma Nação Cristã. Ed. Companhia das letras. 96p.

Orwell, G. 2009. 1984. Ed. Companhia das Letras. 414p.

Sagan, C. 2006. O mundo assombrado pelos demônios. A ciência vista como uma vela no escuro. Ed. Companhia de bolso. 512p.

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