segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Um pouco sobre as interações entre parasitoides e borboletas

Autor: Elton Orlandin 


As interações entre as inúmeras espécies abrangem uma gigantesca gama de variáveis, que as tornam belas (sob o ponto de vista humano, já que a natureza não possui senso de beleza). Algumas dessas interações beneficiam ambas as espécies (mutualismo), outras beneficiam apenas uma, enquanto a outra não perde e nem ganha nada com a interação (comensalismo). Porém é a interação consumidor-recurso, a mais fundamental na natureza, uma vez que todos os organismos precisam comer, e podem ser comidos. As formas comuns de consumidores são predador, parasita, parasitoide, herbívoro e detritívoro.
Dentre as formas de interação consumidor-recurso, a forma parasitoide é uma das mais complexas, pois de certa forma os parasitoides assemelham-se a parasitas, por residirem dentro do hospedeiro e comerem os tecidos enquanto estes ainda estão vivos; e aos predadores, por matarem seus hospedeiros. No entanto a morte do hospedeiro acontece apenas após as larvas parasitoides terem completado seu desenvolvimento.
A maior parte dos parasitoides conhecidos são espécies de himenópteros (vespas), e dípteros (moscas) cujas larvas consomem os tecidos de hospedeiros vivos, geralmente os ovos, as larvas ou as pupas de outros insetos. É interessante citar ainda que, os parasitoides têm seus próprios parasitas, os quais são chamados de hiperparasitoides.
Os lepidópteros (borboletas) servem de hospedeiros para uma vasta gama de parasitoides. Tanto himenópteros quanto dípteros se utilizam de seus imaturos para dar continuidade as suas linhagens, e essa interação se desenvolveu ao longo de milhares de anos de coevolução envolvendo diversas adaptações comportamentais e fisiológicas do hospedeiro e do parasitoide.
Hospedeiros lepidópteros procuram evitar parasitoides adultos da mesma forma que evitam predadores: através de comportamentos de agregação, deixando-se cair da planta onde se encontram ou ainda através de contorções que podem atrapalhar o ataque do parasitoide. Alguns podem também apresentar camada protetora nos ovos, cutícula mais espessas ou casulos muito emaranhados, desestimulando ataques. Outros ainda regurgitam sobre o atacante ou secretam compostos venenosos que podem matar ou afastar o parasitoide. Há ainda aqueles que possuem relações simbióticas com formigas, sendo defendidos, dos ataques por estas. Quando todas essas defesas falham há ainda a possibilidade de destruir os ovos ou larvas parasitoides utilizando-se de células de defesa, os hemócitos, presentes na hemolinfa, que fagocitam e encapsulam organismos estranhos.
Em contrapartida os parasitoides desenvolveram e aperfeiçoaram diversas estratégias a fim de enganar o hospedeiro ou de suprimir seu sistema imunológico. O ectoparasitoidismo consiste em depositar ovos sobre a presa, ao invés de colocá-los dentro do corpo desta, sendo uma maneira efetiva de evitar o contato dos ovos do parasitoide com o aparato fisiológico da presa, evitando assim a resposta imune. O ataque a ovos e pupas também é uma solução estratégica, já que nestas fases a resposta imune é baixa ou nula.
O mimetismo molecular, em que parasitoides recobrem seus ovos com uma camada proteica muito parecida com as proteínas da presa, enganando o sistema imune desta, e auto-encapsulação em que o parasitoide constrói uma cápsula envolvendo seus ovos, impedindo que a resposta imune da presa os destrua, também são estratégias com vistas de enganar o hospedeiro.
Além disso, existem ainda parasitoides que realizam a supressão da resposta imune do hospedeiro, injetando vírus junto com os seus ovos, dentro do corpo da presa, fazendo com que o sistema imune se ocupe do vírus minimizando assim a resposta imune ao parasitoide. E há larvas de parasitoides que ao nascerem dentro de uma encapsulação feita pela presa, alimentam-se desta cápsula, ganhando acesso ao resto do corpo da presa.
No entanto, contornar o sistema de proteção do hospedeiro é apenas a primeira etapa. Após vencê-la os parasitoides precisam induzir o hospedeiro a determinadas respostas que tornem o ambiente propício ao seu desenvolvimento, em detrimento do desenvolvimento do hospedeiro. Essa indução é chamada de “Regulação Hospedeira”. A regulação hospedeira pode implicar em diversas alterações nas características naturais do hospedeiro como mudanças nas diversas atividades celulares, na quantidade e tipos de nutrientes acumulados no tecido adiposo, no comportamento alimentar, no armazenamento e produção de hormônios, e no desenvolvimento dos órgãos reprodutivos.
Após driblar todos os sistemas de defesa do hospedeiro, alimentar-se e desenvolver-se em seu interior, o parasitoide emerge, ou como larva de último instar, empupando muitas vezes próximo ou junto ao corpo do hospedeiro; ou ainda como adulto, de dentro da pupa de sua presa. Em todos os casos o hospedeiro, não consegue chegar à fase adulta, morrendo após servir de alimento às larvas de moscas e vespas.
Todas essas relações envolvendo parasitoides e presas são fruto de um alto grau de adaptações, selecionadas através da evolução ao longo de milhares de anos, tendo por base aspectos coevolutivos que levaram ao surgimento de milhares de espécies com capacidades diferentes de responderem a essas interações.






Referências

Gross, P.1993.Insect behavioral and morphological defenses against parasitoids. Annual Review of Entomology, v. 38, p.251–273.

Gullan, P.J., Cranston, P.S. 2012. Os Insetos: Um resumo de Entomologia. 4. ed. São Paulo: Roca. 480 p.

Hassel, M. P. 2000. Host-parasitoid population dynamics. British Ecological Society, Journalof Animal Ecology. V. 69, p.543-566.

Hegazi E.,Khafagi W. 2008. The effects of host age and superparasitism by the parasitoid, Microplitis rufiventris on the cellular and humoral immune response of Spodoptera littoralis larvae. J Invertebr Pathol. v.98, p.79–84.

O’Hara, J.E. 2008. Tachinid Flies (Diptera: Tachinidae). p. 3675-3686 . In: Capinera, J.L. (Ed.) Encyclopedia of Entomology. Springer. 4411p.

Ricklefs, R. E. 2010. A Economia da Natureza. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 572p.

Rossi, G. D. 2012. Explorando as interações hospedeiro-parasitoide para a identificação de moléculas com potencial biotecnológico. Tese (Doutorado). Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Piracicaba, SP. 125p.

Sullivan, D. J. 2008.Aphids (Hemiptera: Aphididae). p. 207-206. In:Capinera, J.L. (Ed.) Encyclopedia of Entomology. Springer. 4411p.

Zuparko, R. L.2008. Parasitic Hymenoptera (Parasitica). p. 2730-2736 . In:Capinera, J.L. (Ed.) Encyclopedia of Entomology. Springer. 4411p.

domingo, 16 de agosto de 2015

Incongruências em fantasmas, assombrações e afins

Autor: Mario Arthur Favretto


Muitos acreditam que quando uma pessoa morre uma parte imaterial de si passa para outro plano, ou para outra existência, apesar de em Eclesiastes 3:20 haver a menção de que do pó veio e ao pó voltarás, pois todos vão a um mesmo lugar. Steven Pinker (2013), psicólogo evolucionista menciona que mesmo em crianças há algo no funcionamento do cérebro das pessoas que torna difícil entender a finitude da vida. Quando crescemos construímos melhor o conceito de fim da vida, nosso cérebro compreende o fim dos corpos. Ainda assim, algumas pessoas apreciam a possibilidade de uma continuidade como um consolo para a curta e sofrível existência humana.
É comum que pessoas procedam com supostos testemunhos sobre aparições de fantasmas ou de entidades sobrenaturais. Porém, há certos aspectos destas aparições que demonstram que estas podem mais ser fruto da mente humana do que a prova de uma realidade sobrenatural. Analise desta forma, para que fantasmas e assombrações usam roupas? Em muitos relatos de aparições e pessoa está usando roupas, mas para quê? A roupa é feita de tecidos vegetais, animais ou sintéticos, como esta roupa acompanha a pessoa numa vida além morte? Se a pessoa não sente frio e nem calor, pois não possui mais um corpo material, se possui mais um propósito de atender normas sociais contra nudismo e exposição de partes sexuais (que segundo dizem, anjos não possuem), então por que fantasmas e assombrações usam roupas? Não seria por se tratar apenas de um lapso no funcionamento neuronal da pessoa que fez com que ela tivesse uma alucinação?
Outra questão importante, por que os fantasmas geralmente têm uma aparência cadavérica, mórbida e assustadora? Não é por que a mídia impõe essa visão das assombrações e assim quando a pessoa por algum motivo alucina é remetida a esse aspecto? Se o corpo material é transitório, por que haveria de o “corpo” pós-morte ter a aparência de um corpo vivo ou manter todas as características do momento da morte? Se a assombração é algo imaterial, como poderia agir com o material, encostando em objetos, produzindo sons e afins, se seu meio de contato com o material já apodreceu? Ou ainda, por que as assombrações só aparecem a noite, justamente quando as pessoas estão com sono ou quando acordam em meio a noite, e assim, fica-se mais suscetível que o subconsciente interaja com o consciente produzindo uma alucinação, um sonho lúcido ou uma paralisia do sono?
Desta forma, vemos que as supostas afirmações sobrenaturais, são cheias de incongruências que levam ao entendimento de serem uma explicação inventada para outros fenômenos materiais que levam a pessoa a observar algo que não existe. Ou seja, fenômenos biológicos, como alucinações. É possível que as pessoas só aceitem a ideia de alucinação quando acabarmos com certos preconceitos associados a esse fenômeno e que assim levam a ocorrência da psicofobia, preconceitos em relação a pessoas que possam ter funções psicológicas/neurológicas alteradas. Até que isto ocorra, a explicação sobrenatural será considerada mais bela e reconfortante, afinal, serviria como um reforço para as crenças das pessoas, do que a explicação relacionada a um problema, mesmo que ocasional, no funcionamento neuronal destas.
É necessário afirmar que a alucinação não é necessariamente algo patológico, tanto que pode ser induzida por estados de estresse ou consumo de diferentes substâncias químicas. Almeida (2004), afirma que 10% a 30% da população sem patologias mentais já teve algum tipo de alucinação. Ou seja, estes estados de consciência alterados podem ser mais comuns de ocorrerem do que imaginamos, necessitando a plena compreensão de tratar-se de algo físico nos neurônios e não algo relacionado a existência de fantasmas e assombrações.
Até há pouco tempo a epilepsia era considerada como fruto de possessão, em algumas culturas divina e em outras demoníaca, porém com o avanço do conhecimento científico esclarecido que tratava-se de uma disfunção no cérebro (ver Magiorkinis e colaboradores, 2010), que pode ser medicada e tratada. Assim não precisamos mais realizar exorcismos em pessoas que tenham epilepsia, como afirma a Bíblia (Mateus 17: 15-18). Somente com a difusão do conhecimento científico, do pensamento crítico e reflexivo, poderemos compreender que os fenômenos de fantasmas e assombrações, ocorrem dentro de nossas cabeças, que podem ser ocasionais ou podem ser sintomas de algo mais sério.

Referências:
Almeida, A.M. 2004. Fenomenologia das experiências mediúnicas, perfil e psicopatologia de médiuns espíritas. Tese. Departamento de Psiquiatria. Faculdade de Medicina. Universidade de São Paulo. 278p.
Magiorkinis, E.; Sidiropoulou, K.; Diamantis, A. 2010. Hallmarks in the history of epilepsy: epilepsy in antiquity. Epilepsy & Behavior 17: 103-108.
Pinker, S. 2013. Como a mente funciona. Ed. Companhia das Letras. 3ª edição. 672p.